A Impermanência

25/06/2010 17:05

A Impermanência

Joviana Lopes
Texto originalmente publicado em:
http://sagradaessencia.blog.terra.com.br/2009/03/

    Muitas vezes, por conta da nossa necessidade de segurança, buscamos eternizar momentos que nos  proporcionam alegria, prazer e  bem-estar.
Quantas vezes vivemos momentos de tamanha alegria e satisfação, que bate um medo danado destes chegar ao fim?.. Frequentemente acabamos por não aproveitar ao máximo o momento por medo de perdê-lo. Queremos agarrá-lo a qualquer custo e acabamos por não aproveitar tudo que estamos vivendo em sua totalidade, pois estamos focados no futuro e não presente.
Em outros momentos, trazemos na memória situações tão prazerosas que não conseguimos nos libertar delas, elas se transformam em pensamentos recorrentes. É o viver no passado… E o mais incrível é que buscamos a qualquer custo reproduzir tais situações,  tal como aconteceram. Seja um pôr-do-sol na praia, seja um beijo, seja um papo com um amigo, que nos levou a gargalhadas de doer a barriga.. Tentamos remontar a cena, com o mesmo cenário, mesmos personagens, mesmo diálogo..e para nossa frustração, fracassamos no nosso intento. Uma pena, pois não aproveitamos a novidade, o momento presente, a riqueza do desconhecido, o aprendizado constante, compreendendo que a beleza do momento se encontra justamente no fato de cada um deles ser único, irreproduzível.
Imagine só se cada dia fosse uma cópia fiel do dia anterior. Que tédio! Ainda que façamos as mesmas coisas todos os dias, sempre há novidade: pessoas que cruzam nosso caminho, um imprevisto, o inesperado, atitudes nossas diante de certas situações, as reações das pessoas, o nosso mundo emocional que sofre alterações várias vezes ao longo do dia… Tudo no Universo está em constante mutação, as nossas células, por exemplo,  se renovam a cada 24 horas, a Terra gira em torno do Sol ininterruptamente..
Nada está estanque, estagnado e que bom que seja assim! Esse é o grande milagre da vida!
A rotina, a mesmice, o lugar comum  nos levam a um estado de desânimo que  não nos permite viver num estado de encantamento pela vida, além do que  nossa criatividade e todas as nossas potencialidades ficam dormentes.
Fazer as mesmíssimas coisas todos dias nos dá uma pseudo-segurança, pois nos colocamos numa zona de conforto, onde o novo, o inesperado não tem lugar. Só que o preço por este conforto é muito alto… falta de entusiasmo pela vida, medo, incerteza, tudo isso provém de uma vida morna, sem atritos, só empurrando com a barriga, como se diz. O resultado final disso só pode ser doença, que é sinônimo de desequilíbrio, estagnação, o não fluir da energia, como fala a sabedoria oriental.
Se a sua vida se tornou uma sucessão de momentos sem encanto, sem vida, que tal dar uma guinada nisso? Que tal começar se observando? Verifique o quanto você faz as coisas no automático, sem perceber a ação em si, seja uma simples tarefa doméstica, como lavar os pratos, por exemplo. Procure estar inteiro em tudo aquilo que faz e estar alegre e grato por tudo o que lhe acontece. Quando estiver falando com alguém, procure ouvir mais do que falar. Perceba o outro, o templo vivo que se encontra à sua frente, com tanta experiência de vida, tanta coisa pra lhe ensinar.
E para quebrar a rotina, que tal fazer uma coisa que nunca fez antes? Não precisa ser nada de mirabolante.. coisas simples como fazer um caminho diferente para o trabalho, dormir do outro lado da cama, falar com um desconhecido, usar uma roupa bem diferente do seu estilo, comer coisas diferentes, experimentando outros sabores..

 


O poeta Jorge Luiz Borges, nos presenteia com  poema Instantes:

“..Se eu pudesse viver novamente minha vida, na próxima trataria de cometer mais erros. Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais. Não mais tolo ainda do que tenho sido. Na verdade bem poucas coisas levaria a sério….

se eu voltasse a viver, começaria a andar descalço no começo da primavera e continuaria assim até o fim do outono. Daria mais voltas na minha rua, contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças…… se tivesse outra vez uma vida pela frente.
Mas vejam, já tenho 85 anos, estou cego e sei que vou morrer…”


E quando, de repente,  você sentir um contentamento, o sorriso da alma esboçar no seu rosto  e  você entrar num estado de êxtase, curta esse momento em sua totalidade, mesmo sabendo que não haverá outro igual ..  não tente prendê-lo. Vivencie o estado de graça, mas deixe-o ir como bolhas de sabão.


Joviana Lopes
jovlopes@terra.com.br

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