Viagem Através da Cor - Filme

É claro que estamos falando de um filme e, portanto, espera-se que o final seja mais ou menos convencional e feliz, o que não ocorre no livro original. Tendo passado anos pesquisando os principais tratados já escritos sobre vida depois da morte – inclusive o clássico O Livro Tibetano dos Mortos –, o escritor Matheson foi bastante realista na conclusão de sua história de amor, com um final não tão doce quanto o longa-metragem. Em sua obra, ele junta vários conceitos espiritualistas, aparentemente distintos, sobre a continuação da vida e os costura em uma fantástica unidade coesa. Quem busca entender um pouco melhor a vida em outros planos encontrará inúmeras respostas lendo o livro de Matheson (que tem o título What Dreams May Come, infelizmente ainda não traduzido para o português). Mesmo assim, apesar da adaptação, a jornada vale a pena pela exuberância dos cenários e das cores, utilizadas como elemento essencial nesse mundo do além.
As paisagens que Chris encontra são reproduções das telas que sua esposa pintava, mas de tal forma que as cores parecem estar vivas e fazer parte do ar que ele respira, misturando-se umas às outras num espetáculo de beleza raramente visto no cinema. Por outro lado, sua jornada pelos caminhos que levam ao inferno traz impressionantes cenários sombrios. O contraste é inevitável e o resultado é um pesadelo de tirar o fôlego.
Um dos aspectos mais interessantes na elaboração das imagens que compõem o Céu e o Inferno é que elas estão diretamente relacionadas com o que os personagens pensam a respeito. Para Chris, viver nas paisagens e cores pintadas por sua esposa é o máximo – é a forma que ele encontra para continuar em contato com seus sentimentos mais profundos, mantendo uma ligação com a amada. Para Annie, o terror é viver nas sombras, sem cores e sem memória. Segundo o desenhista de produção do filme, Eugenio Zanetti, eles não queriam ser categóricos e apresentar versões definitivas do que deveria ser o Céu e o Inferno. “Lidamos com sonhos e com o conceito de morte”, ele explica, “como se ambos fossem uma espécie de sono”. Chris começa a perceber as sutilezas do mundo em que se encontra e o quanto ele diz respeito aos seus próprios sonhos de perfeição com a ajuda de Cuba Gooding Jr., seu anfitrião e guia na nova existência.
Mais do que as dificuldades técnicas para elaborar um mundo inédito, o que resultou no desenvolvimento de uma tecnologia inovadora em efeitos visuais, o diretor Vincent Ward entende que as idéias com que trabalharam são o ponto central do filme. Elas apresentam ao grande público a noção de que, ao contrário do que geralmente se supõe, talvez sejam os mortos que estejam se lamentando pelos vivos, e não o contrário.